sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Aqui-agora


É chegado o momento: o sol vem deitar suas luzes no lar que sobrevive. Tanto amarelo-ouro no abraço que os braços se alargam para alcançar – já sabendo que tudo cabe ali, pois tudo já está. Preto velho espia a passagem, com seu cachimbo defumador a abrir os caminhos da abundância. A Grande Mãe aceita o convite e pousa ao lado das flores – é Jasmim anunciando a simplicidade perfumada. Refazer caminhos para unir. Alegria para elevar. Agradecer para transmutar.Ser para estar.


sábado, 26 de novembro de 2011

Abri a janela,
Pus cortinas azuis:
Vento de Iansã
A tirar poeiras.

Descobri
Pernas dançantes
Ombros tranqüilos
Vida-aconchego.

E tudo mudou.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Desapegos da jornada

Meses deslizaram torpes e sagrados.
Sequer posso tocar tanta amplidão, tanto arfar em meio às sombras que iam recebendo luz.
O vale noturno, por onde o girassol muito se nutriu e excretou, precisou ser abandonado. Levemente, como tinha de ser. Sem nada levar. Sem nada voltar para buscar.

- - -

Um corpo molenga, de rigidez-escudo, começa a erguer seu peito e firmar seu ponto - menos caboclo não haveria de ser.

A desindentificação simplesmente aflora em seus primeiros passos. É mesmo flor: delicada e me faz rir. Percebo que as extensões, onde tanto amarrei meu pé, podem ser desfeitas como numa grande brincadeira de criança. 

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quinta-feira, 3 de março de 2011

Do que se é

Se ainda sou um girassol noturno? Pergunta difícil. Para a grandeza da noite, eu, tão metida a altiva, fiquei pequena. A pequena que sempre fui e nunca vi. São tantos espelhos mentirosos que a gente encontra para pendurar na penteadeira. Ou mentirosos somos nós? Se o que fui era tão noite e grande, pequena eu quis ser dia. Sol a queimar a antiga pele até descascar. Azul vistoso para abraçar minha nova criança. Com minha ametista pendurada no pescoço, eu desejei deixar para trás minhas máscaras e minhas já conhecidas fomes de queda. Não compreendi que aquele ser, que também buscava o mesmo azul, cortava junto a mim suas amarras, na mesma sincronia de sempre. Não sabíamos que haveria um trajeto que apenas solitariamente poderíamos passar. Achei que era o fim. Ele enfrentou a solidão. Eu não. Agarrei-me em outra mão pelo velho medo de ficar sozinha. Mão áspera, cheia do mesmo espinho que eu cultuava para minhas autosabotagens. Ferida, entrei para dentro da gaiola que a mão queria carregar. Minha nova pele logo inflamou, o olhar baixou e eu quis anoitecer girassol. Quase acreditei que de nada servira tantos passos, tanto amanhecer e anoitecer. Ainda bem que foi "quase". E esse texto termina assim, como se ainda tivesse muito a dizer. Sem desfecho porque este é mais um início.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Dia

Ando com vontade de clarear isso aqui.
A noite tem me sido tão indigesta.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Lugar

Aqui, o barulho dos corredores
Parece não me dizer respeito.

Atravesso quase invisível
As densas camadas da escassa interação
Como se fosse para fora,
Como se fosse estranho.

Insistente, quando não indecisa,
Essa realidade arfa sobre mim
Com seus tentáculos atrozes.

Às vezes humilde,
Noutras desencorajada,
Permaneço em meu lugar:

Enumerando solidões.


(Isabella Maia)

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Sagrado coração

(...)

E quando vi seus olhos
E a alegria no seu corpo
E o sorriso nos seus lábios
Eu quase acreditei
Mas é tão difícil

Por isso lhe peço, por favor,
Pense em mim, ore por mim
E me diga:
- Este lugar distante está dentro de você.
E me diga que nossa vida é luz
Me fale do sagrado coração
Porque eu preciso de ajuda.


(Renato Russo - Sagrado coração)

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Os (aparentes) contrastes da psicologia

Faço uma prece:

Que eu não deixe de perceber que qualquer ato meu, ainda que indiretamente, acalenta uma criança e sua mãe. Há sempre alguns olhares para me lembrar disso pelos corredores. Que eu não deixe de vê-los.

São eles que vão me salvar quando as burocracias parecerem me sugar.

Sim. Há algo MUITO maior.

Terça-feira

era uma mulher
e um ramo de ervas
próximo ao nariz.
senti o cheiro:
não era de chá nem de terra.

era cheiro de rugas,
de tempo suspenso
de fazer poético
em pleno meio-dia.

meu olhar interviu sem querê-lo
e eu fotografei o susto
a la manoel de barros.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Antony and the johnsons - One Dove




One dove
You’re the one I’ve been waiting for
Through the darkfall
The nightmares the lonely nights
I was born
A curling fox in a hole
Hiding from danger
Scared to be alone

One dove
To bring me some peace
In starlight you came from the other side
To offer me mercy
Mercy, mercy

One dove
I’m the one you’ve been waiting for
From your skin I am born again
I wasn’t born yesterday
You were old and hurt
I was longing to be free
I see things you were too tired
You were too scared to see

One dove
To bring me some peace
In starlight you came from the other side
To offer me mercy
Mercy, mercy

Eyes open
Shatter eyes

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Se te parecer distante,
Escassa de peito aberto,
Não convoque espinhos
Para dançar conosco.

- Não quero mais a fixação dos cortes.

Ao seu lado desaprendo ofícios,
Recuso chispantes faróis,
Sou alforriada do vale dos ventos.
Círculo dos infernos dantescos.

- Pés bailarinos transformam pesos.

Quando vierem artimanhas,
Descaradas sabotagens,
Relembrarei eloqüências
Em imagens.

- Só há céu em lilás degradê quando o sol não arde no rosto.

Acordo desejos sutis.
Cheiro da cidade,
Voz dos ancestrais,
Tempo largo de casas com quintal.

- Frondosos matos cobrem fronteiras.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Lista das pequenas (e pontuais) resistências

Intuir vida em cabelos molhados
Desdobrar joelhos
Cheirar manjericão
Refogar cebolas no azeite
Tatear meu colar de Murano.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Portinari

"Vim da terra vermelha e do cafezal.
As almas penadas, os brejos e as matas virgens
Acompanham-me como o espantalho,
Que é o meu auto-retrato.
Todas as coisas frágeis e pobres
Se parecem comigo"

Candido Portinari

terça-feira, 11 de maio de 2010

Laços invisíveis


Não há orgulho que me impeça de receber seu abraço.

Pulsões

Espio a mim mesma, comprimida em sinais do não pertencimento, estrangeira dos caminhos alheios, como não poderia deixar de ser. A tensão muscular se intensifica. Ombros que pesam mostram mais do meu inferno do que eu gostaria de saber. Das minhas contradições quando a vaidade assola meu calcanhar. Ansiedade. Diminuo o ritmo da respiração, lembrando de segurar o leme... Técnicas comportamentais me incitando a traições psicanalíticas. Brecando meu pulsar mortífero – como se pudesse ser. O tronco não agüenta a rigidez e eu me debruço na mesa. Extraio a não-leveza da poesia, mas sem exageros. O caminhar é vagaroso quando silencio... Bastam de alardes, confissões de coitada, escritos superlativos. Se eu agüento ou deixo de agüentar, cabe a mim mesma. A mão estendida me ajuda no equilíbrio, mas não me sustenta o peso. Eu compartilho por querer, já não mais por desespero. Meus planos se esticam e se apresentam em recomeço, já não mais por cegas fugas... A adolescência se foi há alguns poucos anos. Com ela, o extravasar em cascatas e algumas esperanças também. A falta de norte sucumbiu: tenho direções - sorrio por ser plural. Abocanho meus objetivos. Fortaleço-me em vorazes leituras. E vislumbro ser essa a legítima saída: pulsão de vida.

quarta-feira, 24 de março de 2010

...


Encolho-me para caber em versos que não sou. Em críticas que, em última instância, compreendo não precisar. Encolho-me para o encaixe estético, travo a língua e arrisco meu passo em falso. Por qual motivo? Tocar as mãos daquela que é alcançada por pássaros de outras castas? Pregar asas no sumo escrito agarrado em minhas pernas, como filho inseguro? As mãos se estendem desconhecendo minha frágil respiração poética. Pouco relevei a fluidez da minha prosa. Ela precisa de coragem, mas há que ser sem esperanças - disse-me. Por qual motivo? A falta dele (e minha) é objeto espaçoso na sala de espera.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Espio um jardim

Imagem: Chagall


Cercas sem arames farpados. Um verde de mastigar com os olhos. Ponte que faz Poti tocar a mão de Iracema, fortemente. Sorrisos de estremecer o corpo. À sombra dos eucalipitos, enraizamos nossas juras de amor sob a testemunha da mãe-terra - molhada, cheirosa, fértil. Eu me rendo e dou de ombros às súplicas das tempestades sem abrigo. Você me quer livre e eu me permito sentir o gosto doce desse passo. Te quero, meu cheiro amadeirado, trazendo as boas novas daqueles campos onde o amor não se valida com as inflamações torpes, as nocivas labaredas, onde os ossos se fraturam nas esquivas - o amor não é desamor. Munido de tinta azul, nosso lar já se ergue na beira do ribeirão com grandeza de mar. Beijo tuas mãos.


Obs: Texto escrito em volúpia, sem censuras, como uma queda d'água que flui em rapidez, inspirado nas palavras de um jardim suspenso.

domingo, 24 de janeiro de 2010

I

Quando queimei as pontes
O sagrado se espalhou como pólen
Transparente-lilás
- dulcíssimo exposto-mistério.

Penetrou as flores mais intocáveis
(tulipas entre os entulhos)
E as pequenas rachaduras
Nos cacos de vidro do muro

Altiva, eu nada quis reter.

Quando o lodo secou
(crosta na pele)
A fauna noturna sugou minha seiva,
Meus anticorpos.

Censurada, eu desaprendi a chorar.

Em cólera, perguntei:
Deus, por onde me espia
Para eu ultrapassar essa fresta?

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Carne viva


Lóri se sentia como se fosse um tigre perigoso com uma flexa cravada na carne, e que estivesse rondando devagar as pessoas medrosas para descobrir quem lhe tiraria a dor. E então um homem, Ulisses, tivesse sentido que um tigre ferido não é perigoso. E aproximando-se da fera, sem medo de tocá-la, tivesse arrancado com cuidado a flecha fincada.

(Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. P. 121)


sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Processo-dor I

Em hiato,
afastam-se as palavras.
Eu oro em desespero:
Muros se partam
para o meu sumo sair,
escorrer cintilante
em grito inflamado.
Os senhores vigilantes de todo o movimento
caçoam da minha alteridade
enfraquecem o jorro,
essa potência de vida.

O olhar, no entanto,
persegue ousado
a composição que atinge a víscera.

Alimento minhas algas marinhas,
mas não consigo expelir.