sábado, 31 de janeiro de 2009
Maré
Mais uma vez
vem o mar
se dar
como imagem
Passagem
do árido à miragem
Sendo salgado
gelado
ou azul
Será só linguagem
Mais uma vez
vejo o mar
voltar
como imagem
Passagem
de átomo a paisagem
Estando emaranhado
verde azul
Será ondulado
Irado emaranhado
verde azul
Será ondulado
(Adriana Calcanhotto - Maré)
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Diferenças, medos e aceitação
Diz que me ama
Mas o que é que eu fiz
Porque há mais de uma semana
Você está de má vontade
Tudo o que eu digo parece bobagem
Apesar de achar que, em parte
O que você diz é verdade
Mas isso não é nenhum desastre
Pois nunca é tarde pra saber
Que não há nada errado em sermos diferentes
(Só somos diferentes).
[Nando Reis - Sortimento]
* * *
Vou tentar manter o coração aberto pra você,
Apesar dos outros,
Apesar dos medos,
Apesar dos monstros nos meus pesadelos
Vou tentar manter o coração aberto pra você,
Apesar dos trincos,
Apesar dos trancos,
Apesar dos dias repetidos que são tantos.
Eu vou tentar manter o coração aberto pra você.
Apesar da chuva,
Apesar da rua,
Apesar da hora,
Apesar dos pesares, das canções, dos lugares,
Apesar dos meus pensamentos, dos perigos, dos próximos momentos.
Eu de coração aberto pra você,
de coração aberto pra você.
[Aberto - Zélia Duncan e Edu Tedeschi]
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
mar de pôr do sol
Tão logo o sol se pôs no porto,
entrei no mar.
Resquícios de luz
fizeram dele um alaranjado só,
num banho de me dourar: tão pérola.
Sozinha com meus pesos,
meus sais
meus tempos
- sou fênix marinha e meus descaminhos vicejam e me purificam
[ quando a água me acolhe.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
Para a virada de ano...
"É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus.
Fiz sinal de gostar de o ver ainda, mais nada."
Caeiro
______
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus.
Fiz sinal de gostar de o ver ainda, mais nada."
Caeiro
______
Que nesse próximo tenhamos mais tempo para olhar com mais poesia as coisas ao nosso redor, que respiremos melhor, que cuidemos mais do nosso corpo. Mais tempo para viajar e descobrir esse mundão, mais tempo para os encontros gostosos com as pessoas queridas, para ler aqueles livros que empilhamos na estante. Mais tempo para que não optemos somente pelas coisas descartáveis, para que revelemos nossas fotos digitais, para arrumar nosso quarto, para comer uma comidinha caseira, para visitar nossos avós, para fazer a diferença e, principalmente, reavaliar nossas atitudes que influenciam negativamente na vida das outras pessoas. Acho que isso já resume um bocado das minhas expectativas e votos.
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
Se eu não consigo te sentir, a distância é ocupada por um grande vácuo. Não sei ficar à mercê do acaso, dos encontros efêmeros e desastrados numa hora que nunca sabemos quando vai ser. Os ritos e a comunhão vão se desgastando por estarem a esmo.
Em tempo: o meu amor ainda caminha sobre frágeis trilhos de papel.
Em tempo: o meu amor ainda caminha sobre frágeis trilhos de papel.
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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
(em memória ao seu aniversário,
outras letras para marina)
outras letras para marina)
da pele de sua poesia
emergem lavas vulcânicas
- o céu fica todo cor de carmim.
aqueço-me
em seus versos deLírios
e anuncio:
ela é a mulher-loba que uiva em palavras.
(Feliz aniversário, querida. Que os seus olhos nunca se fechem pra delicadeza do mundo...)
domingo, 21 de dezembro de 2008
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Onde alcançar o espaço no teu coditiano capaz de me aquecer? Você me vem de forma tão pesada, quase nem me olha no olho. Eu me pego a sempre tolerar seus sumiços, nesse duelo de bicudos, nesse vão que me parte ao meio. Onde você está por detrás de tantas roupagens e subsídios inúteis? Cadê meu herói para me preparar vitaminas de abacate e me carregar ao colo toda vez que eu adormecer no carro, no caminho de volta para casa? Que saudade dos passeios no parque que não fizemos, dos filmes que não vimos juntos, de todos os lugares do país que você visitou tantas vezes e nunca me levou contigo. Que saudades da tranqüilidade que não te era peculiar, do compasso ausente em nossos diálogos e do tempo que você não tinha para mim, para nós. Você sempre tão prestativo para os outros e tão azedo para mim, cego ou tão temeroso para as minhas lacunas. Tantas projeções, lamas desnecessárias, muros intransponíveis de silêncio. Que medo você tem de se aproximar, de pedir colo, de acalentar? Foge ofegante para não implorar ajuda e tem, em colos alheios, o carinho que necessita. Em colos sujos, enquanto você rejeita o que te é sagrado.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
domingo, 30 de novembro de 2008
A intimidade
Ao som de: Cat Power - Wild is the wind
Gosto quando a intimidade vem sorrateira, sem pedir licença, quando cai como luvas em minhas mãos ressecadas. O clichê faz sala para as palavras, mas eu pouco me importo se é piegas e tão dito pelas bocas mundo afora. Importa-me mais ser chamada pra deitar no teu peito e querer, querer também as pernas encaixadas e nossos pés com linguagem própria. E a gente se olha com timidez e a intimidade já está lá, sem muito tempo a perder, fazendo tanto por nós. Lava a louça antes que a gente se incomode, prepara sobremesas, o banho, economiza pratos, cerimônias, dizeres... A intimidade ri da dor de barriga imprevisível, do beijo quando descompassado, das gafes que nenhum cinéfilo perdoaria, da música brega que insiste em martelar na cabeça. Ri dos nossos olhares, das nossas inquietações, dos monstros que somos nós e não somos e não sabemos.
Gosto quando a intimidade vem sorrateira, sem pedir licença, quando cai como luvas em minhas mãos ressecadas. O clichê faz sala para as palavras, mas eu pouco me importo se é piegas e tão dito pelas bocas mundo afora. Importa-me mais ser chamada pra deitar no teu peito e querer, querer também as pernas encaixadas e nossos pés com linguagem própria. E a gente se olha com timidez e a intimidade já está lá, sem muito tempo a perder, fazendo tanto por nós. Lava a louça antes que a gente se incomode, prepara sobremesas, o banho, economiza pratos, cerimônias, dizeres... A intimidade ri da dor de barriga imprevisível, do beijo quando descompassado, das gafes que nenhum cinéfilo perdoaria, da música brega que insiste em martelar na cabeça. Ri dos nossos olhares, das nossas inquietações, dos monstros que somos nós e não somos e não sabemos.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
sábado, 15 de novembro de 2008
2.2
O tempo passou por aqui e eu mal o vi. Em um ano, correu ligeiro, tropeçando nos batentes e esbarrando nas pessoas, mais acelerado que outrora. Passou sem que eu pudesse me demorar numa dança, num beijo, num abraço de cais de porto. Fiquei ansiosa com tudo às pressas, achando que me expor, algumas vezes, era o mesmo de fazer bom uso dessa ironia chamada tempo. Enganei-me, cedi às súplicas e me pus a vivenciar a maratona como se o tempo pudesse me deixar para trás. Que bobagem! O tempo não desprende o menor esforço para nos empurrar para frente. É como maré que está enchendo... E as coisas perecíveis se acabam antes que a gente possa enxergá-las de verdade. Então eu peço a paciência da música clássica, do violão do choro e o fôlego do sax. Peço o mar em fim de tarde e que eu possa me demorar em conversas intermináveis, nas noites de céu limpo. Peço para que eu não me esconda por medo dos outros. Peço para conseguir captar o que os outros realmente são à parte de todas as minhas projeções e expectativas e que eu lhes faça companhia mais por eles que por mim algumas tantas vezes. A nova idade vem como marca principal o desejo de reconstruir, resgatar, montar aquilo que eu acredito com as peças disponíveis ao meu redor, depois de cinco anos de desconstrução e limpeza dos destroços. As tais peças vêm de repente sem que eu precise nem procurá-las.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Das mudanças que saltam aos olhos ou mais um texto egocêntrico
Os últimos relatos colhidos por amigos, para não esquecer, refletir e ter como parâmetro:
D.: Você pode estar meio assustada, sem saber ainda que destino dar para tantas mudanças, mas você, no fundo, sabe exatamente quem você é e nunca soube tão bem.
M.: Não poderia ser diferente, você perdeu muito daquela visão romântica de cinco anos atrás. Estranho seria se continuasse a mesma, sempre.
Y.: Seu texto, diga-se de passagem, foi muito bem escrito – algo que não é novidade na sua pessoa. Aquilo que aparece como novo para mim é sua dureza, forte ironias e defesas.
R.: Gostei principalmente de lhe ver mais centrada, forte e serena.
U.: Se fosse hoje em dia, eu jamais lhe daria “a mulher sem pecados”* novamente.
___
* livro de Nelson Rodrigues.
D.: Você pode estar meio assustada, sem saber ainda que destino dar para tantas mudanças, mas você, no fundo, sabe exatamente quem você é e nunca soube tão bem.
M.: Não poderia ser diferente, você perdeu muito daquela visão romântica de cinco anos atrás. Estranho seria se continuasse a mesma, sempre.
Y.: Seu texto, diga-se de passagem, foi muito bem escrito – algo que não é novidade na sua pessoa. Aquilo que aparece como novo para mim é sua dureza, forte ironias e defesas.
R.: Gostei principalmente de lhe ver mais centrada, forte e serena.
U.: Se fosse hoje em dia, eu jamais lhe daria “a mulher sem pecados”* novamente.
___
* livro de Nelson Rodrigues.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Quando eu quis ser grande
Ser grande era pertencer, eu pensava. Queria me tornar grande para poder ser, enfim, parte de vocês. Quando chegaria? – eu divagava todas as noites. – Será hoje? – ritualizava toda a espera. Não, não era hoje. Eu tinha paciência. Tentava me aproximar pelas beiradas, mas quando descobria um lugar vago, era rapidamente afastada dali. Foi assim quando vocês me tiraram daquela cama e me devolveram à rede localizada no pior canto da casa. Nem ouviram que chorei baixinho a noite inteira, nem queriam ouvir. No outro dia, eu sempre me contentava com as migalhas de atenção. – senta aqui, pode ouvir nossa conversa, hoje é seu dia de sorte porque vamos te levar à praça logo ao anoitecer – vocês diziam e eu explodia de felicidade. Uns não queriam de jeito algum: eu incomodava, atrapalhava como uma caixa de papelão que polui a decoração da sala. Mas eu sabia que quando fosse grande seria tudo diferente. Era meu segredo e meu maior sonho: ser grande. Quando o dia chegasse, vocês iriam me olhar de verdade e me amar tanto quanto eu os amava. Eu teria de volta a minha voz. Então, tinha pressa em ser grande, nem que para isso eu passasse maior parte do tempo sozinha, pulando fases, incorporando seriedades. Eu, tão menina, queria homens consideravelmente mais velhos apaixonados por mim e surpresos pela maturidade que não condizia com a idade cronológica. Era deleite, era gozo. Ganhei minha maioridade bem antes do tempo, tinha carta branca para viajar sozinha para onde bem entendesse, comecei a trabalhar antes dos dezoito e não fui morar em outro país apenas por falta de grana, mas ousei mais do que poderia supor, extrapolei os limites de cada fase e fui além, tudo para chegar mais rápido. Se eu queria pertencer, precisava ser grande. E me tornei - um dia me dei conta. Olhei ao redor e tudo era como imaginava, como visualizei, menos pertencer a vocês. Na minha luta íntima, solitária e silenciosa, fui me afastando e vocês, como sempre, nunca notaram. Sangue do mesmo sangue, tantos traços comuns, tantos encontros contrastando com abraços frios e as tentativas de conversas vazias e desprovidas de sentido. Hoje só sinto essa estranheza do lado de cá e uma indiferença enorme desse lado daí. E tudo fica por isso mesmo? Não. Cecília Meireles provavelmente teria transformado tudo em poesia, como se tocando fogo em seus sentimentos, jogasse depois as cinzas, silenciosa, no mar. Fiz isso por muitos e muitos anos, até aprender com Clarice (sim, a Lispector): “Há o direito ao grito, então eu grito”. Porque, depois de tanto tempo, eu descobri que para gritar não precisa ser grande.
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
Das escolhas I
Ela tinha duas escolhas: recuar ou se expor. Difícil identificar a mais sábia para o momento. Tomou mais algumas cervejas, fumou um cigarrinho e respirou fundo. Optou pela espontaneidade, mesmo sabendo de todos os riscos que ela também poderia trazer. Previa as cenas de um já conhecido filme de drama, onde era sempre a figurante imóvel, tímida, sem voz. Decidiu reescrever o roteiro – ali seria diferente, tinha de ser. Se bem sabia o que queria, por que aceitar que uma situação tão constrangedora estragasse sua noite? Sempre admirou as mulheres que não davam o braço a torcer fácil, que ousavam assinar seus nomes embaixo de cada feito repudiado pelo falso moralismo. E, além do mais, não tinha nada de ilegal em mover algumas pecinhas no tabuleiro e mostrar: “ei, eu estou aqui e não vou sair aborrecida desse cenário antes de dizer o que penso e sinto”. Isso, sim, era coerente, ela sabia, mesmo que um ciclo se fechasse logo após. Significava permitir se enxergar e agir sob outras óticas, sobretudo. Nem sabia da desolação do dia seguinte, daquela sensação ressacada advinda da exposição, da falta de resguardo, de ter seus passos acompanhados por olhares curiosos e de possíveis desafetos. Mas, ainda bem, sabia que se fortalecia por escolha própria, por não se acovardar em se impor.
E só os deuses e as pessoas mais íntimas captariam a imensa importância disso.
E só os deuses e as pessoas mais íntimas captariam a imensa importância disso.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
sábado, 6 de setembro de 2008
Pedindo licença
Sentou-se bem de frente a mim, naquele colchão na varanda da casa da lagoa. Trouxe o violão e me deu o primeiro sinal da sintonia inata, mesmo sem trocar mais do que cinco palavras - a discrição. Ainda sem nem saber o seu nome, num impulso não censurado, dias depois, foi ele que eu quis tirar pra dançar e a linguagem corporal foi compreendida na medida exata, fincando em solo a ponte que estreitaria a distância, mais um pouco à frente - a surpresa. Depois eu tive medo, "pois o próximo instante era o desconhecido". Lembrei de Clarice. Recuei e voltei em flor semi-aberta, numa mudança de perspectiva ponderada e amadurecida - o discernimento. Uma tranqüilidade passou a fazer morada por essas bandas e a sensação não era de algo novo, esse entusiasmo tantas vezes efêmero. Não, parecia mais que eu havia descoberto um baú de antigüidades, conservadas da corrosão do tempo por uma perfeita redoma. Lá estavam caixinhas de músicas e letras em papéis amarelecidos. Deleitei-me, como se soubesse que aquilo sempre tivera sido meu - os ritos. Tinha cheiro de Clarice de novo e sua felicidade clandestina, ao se divertir num balanço, abraçada no livro de Lobato que contava as Reinações de Narizinho - as coisas atemporais.
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