sexta-feira, 31 de outubro de 2008

"Ando meio fatigado de procuras inúteis e sedes afetivas insaciáveis."

Caio Fernando Abreu

quinta-feira, 2 de outubro de 2008


Quando desisto é que surges
E quando ruges é que calo
Quando desmaio é que corres
Quando te moves me acho
E quando calo me curas
E se te misturo me perco
Assobia.


Ana C. César

Das mudanças que saltam aos olhos ou mais um texto egocêntrico

Os últimos relatos colhidos por amigos, para não esquecer, refletir e ter como parâmetro:


D.: Você pode estar meio assustada, sem saber ainda que destino dar para tantas mudanças, mas você, no fundo, sabe exatamente quem você é e nunca soube tão bem.

M.: Não poderia ser diferente, você perdeu muito daquela visão romântica de cinco anos atrás. Estranho seria se continuasse a mesma, sempre.

Y.: Seu texto, diga-se de passagem, foi muito bem escrito – algo que não é novidade na sua pessoa. Aquilo que aparece como novo para mim é sua dureza, forte ironias e defesas.

R.: Gostei principalmente de lhe ver mais centrada, forte e serena.

U.: Se fosse hoje em dia, eu jamais lhe daria “a mulher sem pecados”* novamente.



___

* livro de Nelson Rodrigues.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Quando eu quis ser grande

Ser grande era pertencer, eu pensava. Queria me tornar grande para poder ser, enfim, parte de vocês. Quando chegaria? – eu divagava todas as noites. – Será hoje? – ritualizava toda a espera. Não, não era hoje. Eu tinha paciência. Tentava me aproximar pelas beiradas, mas quando descobria um lugar vago, era rapidamente afastada dali. Foi assim quando vocês me tiraram daquela cama e me devolveram à rede localizada no pior canto da casa. Nem ouviram que chorei baixinho a noite inteira, nem queriam ouvir. No outro dia, eu sempre me contentava com as migalhas de atenção. – senta aqui, pode ouvir nossa conversa, hoje é seu dia de sorte porque vamos te levar à praça logo ao anoitecer – vocês diziam e eu explodia de felicidade. Uns não queriam de jeito algum: eu incomodava, atrapalhava como uma caixa de papelão que polui a decoração da sala. Mas eu sabia que quando fosse grande seria tudo diferente. Era meu segredo e meu maior sonho: ser grande. Quando o dia chegasse, vocês iriam me olhar de verdade e me amar tanto quanto eu os amava. Eu teria de volta a minha voz. Então, tinha pressa em ser grande, nem que para isso eu passasse maior parte do tempo sozinha, pulando fases, incorporando seriedades. Eu, tão menina, queria homens consideravelmente mais velhos apaixonados por mim e surpresos pela maturidade que não condizia com a idade cronológica. Era deleite, era gozo. Ganhei minha maioridade bem antes do tempo, tinha carta branca para viajar sozinha para onde bem entendesse, comecei a trabalhar antes dos dezoito e não fui morar em outro país apenas por falta de grana, mas ousei mais do que poderia supor, extrapolei os limites de cada fase e fui além, tudo para chegar mais rápido. Se eu queria pertencer, precisava ser grande. E me tornei - um dia me dei conta. Olhei ao redor e tudo era como imaginava, como visualizei, menos pertencer a vocês. Na minha luta íntima, solitária e silenciosa, fui me afastando e vocês, como sempre, nunca notaram. Sangue do mesmo sangue, tantos traços comuns, tantos encontros contrastando com abraços frios e as tentativas de conversas vazias e desprovidas de sentido. Hoje só sinto essa estranheza do lado de cá e uma indiferença enorme desse lado daí. E tudo fica por isso mesmo? Não. Cecília Meireles provavelmente teria transformado tudo em poesia, como se tocando fogo em seus sentimentos, jogasse depois as cinzas, silenciosa, no mar. Fiz isso por muitos e muitos anos, até aprender com Clarice (sim, a Lispector): “Há o direito ao grito, então eu grito”. Porque, depois de tanto tempo, eu descobri que para gritar não precisa ser grande.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Das escolhas I

Ela tinha duas escolhas: recuar ou se expor. Difícil identificar a mais sábia para o momento. Tomou mais algumas cervejas, fumou um cigarrinho e respirou fundo. Optou pela espontaneidade, mesmo sabendo de todos os riscos que ela também poderia trazer. Previa as cenas de um já conhecido filme de drama, onde era sempre a figurante imóvel, tímida, sem voz. Decidiu reescrever o roteiro – ali seria diferente, tinha de ser. Se bem sabia o que queria, por que aceitar que uma situação tão constrangedora estragasse sua noite? Sempre admirou as mulheres que não davam o braço a torcer fácil, que ousavam assinar seus nomes embaixo de cada feito repudiado pelo falso moralismo. E, além do mais, não tinha nada de ilegal em mover algumas pecinhas no tabuleiro e mostrar: “ei, eu estou aqui e não vou sair aborrecida desse cenário antes de dizer o que penso e sinto”. Isso, sim, era coerente, ela sabia, mesmo que um ciclo se fechasse logo após. Significava permitir se enxergar e agir sob outras óticas, sobretudo. Nem sabia da desolação do dia seguinte, daquela sensação ressacada advinda da exposição, da falta de resguardo, de ter seus passos acompanhados por olhares curiosos e de possíveis desafetos. Mas, ainda bem, sabia que se fortalecia por escolha própria, por não se acovardar em se impor.
E só os deuses e as pessoas mais íntimas captariam a imensa importância disso.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Vinho






in vino veritas.

e no jogo?

sábado, 6 de setembro de 2008

Pedindo licença


Sentou-se bem de frente a mim, naquele colchão na varanda da casa da lagoa. Trouxe o violão e me deu o primeiro sinal da sintonia inata, mesmo sem trocar mais do que cinco palavras - a discrição. Ainda sem nem saber o seu nome, num impulso não censurado, dias depois, foi ele que eu quis tirar pra dançar e a linguagem corporal foi compreendida na medida exata, fincando em solo a ponte que estreitaria a distância, mais um pouco à frente - a surpresa. Depois eu tive medo, "pois o próximo instante era o desconhecido". Lembrei de Clarice. Recuei e voltei em flor semi-aberta, numa mudança de perspectiva ponderada e amadurecida - o discernimento. Uma tranqüilidade passou a fazer morada por essas bandas e a sensação não era de algo novo, esse entusiasmo tantas vezes efêmero. Não, parecia mais que eu havia descoberto um baú de antigüidades, conservadas da corrosão do tempo por uma perfeita redoma. Lá estavam caixinhas de músicas e letras em papéis amarelecidos. Deleitei-me, como se soubesse que aquilo sempre tivera sido meu - os ritos. Tinha cheiro de Clarice de novo e sua felicidade clandestina, ao se divertir num balanço, abraçada no livro de Lobato que contava as Reinações de Narizinho - as coisas atemporais.




* * * *
Ps: Texto escrito em 08/08/2007. Está no antigo blog, mas eu gosto tanto dele que resolvi trazê-lo pra cá.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Esse samba

Eu fui sozinha. Deus, como fazia tempo que eu não ousava tanto. A Ribeira, tão vazia em fim de tarde, tinha cheiro de saudosismo como um retrato em preto e branco. Tive medo. Cheguei, como dizem, “pelas beiradas”, quase me escondendo. Tirei o celular da bolsa, fingi tentar ligar para alguém, olhei meio inquieta pro relógio... Pelo o amor dos deuses, como é difícil estar só estar só vez em quando! Devo ser mesmo muito extremista, pois bem sei a vontade danada que tenho de dar minhas voltas solitárias, a fim de conferir o ambiente, quando saio com outras pessoas. No entanto, naquele buraco da catita, eu achei ruim estar só. Talvez eu goste de uma "liberdade segura", por assim dizer. Mas, voltando: o samba ia esquentando e todo mundo agregado. Com quem eu iria comentar que a música Desalinho é a cara da minha mãe? E que Cartola (e todo o samba da velha guarda da mangueira) é mantido no repertório das batucadas da minha família há mais de 40 anos? Só então eu percebi que o samba se torna infinitamente mais triste quando se está só. Samba é música de roda, de olhar no olho, de se apropriar do tamborim alheio enquanto o dono sai para ir ao banheiro ou pegar mais uma bebida... O que fazer? Decidi respirar fundo e curtir mesmo assim. Pelo samba, o sacrifício era mais que válido. A cerveja e a música foram me animando cada vez mais e, quando percebi, já estava com os pés ganhando vida própria, involuntários, doidos para sambar. O canal se abriu e as pessoas ao redor me acenaram com a mão, num gesto de aprovação à ousadia que começara tão cabisbaixa. As meninas da mesa à frente tomaram coragem e me chamaram para perto. Os músicos tiraram o chapéu e atenderam nosso pedido de Tiro ao Álvaro. Quase havia me esquecido que o samba é isso. O samba é buliçoso. O samba balança, mas não cai.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

(...)
Palavras de virar cabeça
Meu amado vai usar
Palavras como se elas fossem mãos
Tantos rodeios
Pra enfim me roubar
Coisas que dele já são...

(Chico Buarque - Lábia)

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

sem título

foto: autoria desconhecida



Meu corpo, às vezes, nem sei se é um templo sagrado

Quando ofereço minha carne

E a devoram

Indiferentes ao que deixam

E àquilo que levam de mim.


Sou muito mais, ouviram?

Ainda que torçam meus espinhos para dentro

Ainda que eu finja que nem me importo

Com qualquer depois...


Um vão se forma em minha alma

Em dias de exposição barata.

Novamente, mordo essa língua:

Não me basta.



terça-feira, 19 de agosto de 2008

Do desejo

.



I

Prefiro não ir,
É melhor ficar.
Meu pulso está com preguiça de se portar frente à navalha!
Desejo interdito.
Desejo inter dito.
Sucumbido.


II

Densa que sou,
Bem sei o perigo em sentir.
Aborto minhas chamas:
Fica para outra vez.


quarta-feira, 13 de agosto de 2008

"Os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma que precisam da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não se afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo".

Caio Fernando Abreu in "Os dragões não conhecem o paraíso", p. 148.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Quase três horas da manhã. Todos os cômodos da casa estão escuros, exceto por aqui, ao meu redor, com essa luminária cor de prata acesa. A cidade é lavada impiedosamente por uma chuva ininterrupta. É água tomando conta de tudo e a gente acaba ficando mais só, assim, sem muita escolha. Gosto quando a natureza põe as coisas em seus devidos lugares e mostra quem controla quem. Fernando Pessoa se vestia de Alberto Caeiro em dias mais céticos – nem por isso menos poéticos – e defendia que não há mistério algum no mundo, que tudo está de acordo e vale à pena. É, tem dias em que também acordo meio Caeiro, mas hoje não. Hoje eu me pego pensando nesse indizível da matéria do mundo, sentindo uma inquietude por estranhar essa coerência tão incoerente do espaço e da vida residente nele, a vida com prazo de validade que teimamos em eternizar.
Um café alivia o frio tal qual um abraço ou um deitar no peito de quem amamos. E aí chegamos a pensar ser nesse novelo bom de sensações que o significado de tudo se dá e se finda. No entanto, quando estamos sós, muita coisa parece se desconstruir ao passo em que engolimos o mundo com ansiedade (ou nós somos engolidos por ele?) – fragmentos de certezas descartadas por todo o corpo ou nosso corpo desfragmentado em certezas invisíveis.

domingo, 15 de junho de 2008

Tudo estava indo bem no país das maravilhas quando um velho sentimento resolveu reaparecer. Eu acreditava ter me despedido no dia em que pus um ponto final em forma de tatuagem - uma lua - na minha epiderme. Ali era o limite, decretei exausta. Eu tinha quinze anos quando o conheci. Ele era grande demais para o meu corpo de menina-moça, que nunca havia experimentado respirar o mundo caótico e sedutor nos pulmões. Seu peso me obrigou a andar com os pés afundando e sua aspereza me perfurava o peito sem piedade. E ele nem era por mim. Nem vinha de mim. Espetava a cada um dos vinculados a seu modo. - Lua, me lava a alma e me leva embora*. Porque se minha voz tivesse força igual à imensa dor que sentia, meu grito acordaria a vizinhança inteira**. E quem dera que se tratasse de dor de cotovelo ou de qualquer tipo de luto simbólico. Agora ele volta. O peso extravasa em tensão no ombro, como se tivesse carregado 15 kg nas costas o dia inteiro. Eu sinto mais indignação do que compaixão. Percebo então o grande cansaço que outrora deixou. Constato: não tenho mais tanta carne pra deixar-me conduzir pelo medo e fraqueza. Descarregue nas costas, mas não vai machucar meu peito de novo. O tempo é outro e meus mecanismos de defesa estão afiadíssimos. Doses cavalares de serenidade, por favor!


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*em itálico, um trecho da música "samba a dois" de los hermanos.
** adaptação discreta da música "há tempos" de legião urbana.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Não adianta. Ninguém nunca vai entender o que realmente somos um pro outro. Podem tentar chegar até perto ou muito longe, mas só a gente vai saber o que nos move em direção a essa ligação tão forte. E eu vou estar perto, quando longe e de mãos dadas, sempre que perto. E se meu abraço puder dissolver as dores que você sentir, eu quero ter o colo mais macio e os punhos mais firmes, para te ser confortável, quente e segura nos dias frios e injustos. E vou desejar ser tão alta quanto você, para que sua cabeça se encaixe em meu ombro e eu te cuide. A cada ano que se passa, a gente dá um jeito de dizer: “não saia nunca de perto, por favor” e “eu vou estar com você o tempo todo”. Esses anos hoje se somam em seis. A gente se ama e pronto. Sem rótulos e formas pré-estabelecidas. Amizade limpa. Livre das mesquinharias desse mundo de vaidades. Só enquanto eu respirar...

quinta-feira, 15 de maio de 2008

sobre cacos e laços

O que a raposa diria ao principezinho sobre resgatar laços (talvez) desfeitos? Penso que ela novamente lhe lembraria da necessidade dos ritos, de encher o coração deles para se preparar para a chegada do outro. E ao invés dos ritos exclamativos só há um silêncio desconhecido por dentro? Seria uma espécie de rito também? Um silêncio de corações arranhados em pontos tão delicados. Um silêncio recolhido em sua insignificância confusa. Um silêncio que não consegue falar. Voz que engasga antes de existir. Falta. Trava. Curva-se sem orgulho e com serenidade. Serenidade. Não é a ausência de Drummond, mas a sinto aconchegada nos meus braços. Sim, a serenidade. Por ela, respeito a mudez e respeito também sua chegada. Porque sua saída provocou dor aguda e a chegada eu não sei dizer. Se a gente sentasse um pouco mais perto, a cada dia? E eu te contarei histórias e você me contará as suas de coisas periféricas, a priori. E o barulho do vento no trigo voltará a me fazer rir uma vez que me lembrarão seus cabelos loiros? Que seja doce e pare de doer em nós.

(Porque eu desejei ser grande para abraçar todas as nuances da terra encantada de tão contraditória, mas ela me entregou uma tristeza que me abocanhou com facilidade e me fez menor que um grão de poeira de céu nublado).

domingo, 4 de maio de 2008

manifesto contra a cegueira I

Farejo os cantos. Há um cheiro desconhecido, um amadeirado um pouquinho doce que não invade a sala provocando grandes euforias ou dor de cabeça. Fosse outrora, eu estaria vasculhando tudo a fim de saber de onde veio. Mas não, fico quieta e o deixo passar pelas minhas narinas como bem entender. Meus receptores olfativos parecem apurados e minha percepção seleciona, organiza e me devolve em interpretação: sim, eu gosto. Divirto-me em tentar enxergar as coisas pelo viés dos processos básicos psicológicos. Não se limita em revisar para a prova, é muito mais. Porque há um deleite que faz a roda da minha vida girar como um carrossel dos sonhos de criança. Um giro sem altos e baixos assustadores. Uma sincronia de movimentos e tons lilases, sem pressa alguma. Um contexto que me presenteia com a graça em olhar mais para dentro das pessoas. Um olhar fundo, embriagador para alguns e devastador para outros. Colho pequenezas, restos ensangüentados e um vazio em se desconhecer e se perceber maltrapilho de sentimentos. Vias que me levam para um passeio de coisas rígidas, leves ou intrigantes por demais. Tem tanta coisa nesse mundão de meu deus. Tanto desejo não permitido e pouco elaborado. Tanta gente que se esconde e se pinta de cores que nunca serão suas.

Bom mesmo é me deparar com aquele pequeno bote de pessoas se aventurando nas corredeiras, enfrentando as quedas d’água, arranhadas pelos galhos soltos – expostas por espontânea vontade e instinto.

- Ei, esse seu olhar está me perturbando! É cortante!

- É afrodisíaco. Excitante. Gosto de ser despido desse jeito por você.

- Meu filho, quem é mesmo aquela moça de olhos tão vivos?

terça-feira, 29 de abril de 2008

Receita para lavar palavra suja

Mergulhar a palavra suja em água sanitária, e depois de dois dias de molho quarar ao sol do meio dia.

Algumas palavras, quando são alvejadas ao sol, adquirem consistência de certeza, como, por exemplo, a palavra vida. Existem outras, e a palavra amor é uma delas, que são muito encardidas e desgastadas pelo uso, o que recomenda esfregar e bater insistentemente na pedra e depois enxaguar em água corrente. São poucas as palavras que resistem a esses cuidados, mas sempre existem aquelas.

Dizem que limão e sal tiram sujeiras difíceis, mas toda tentativa de lavar a piedade foi sempre em vão. Eu nunca vi palavra tão suja quanto perda; perda e morte, na medida em que são alvejadas, soltam um líquido corrosivo que atende pelo nome de amargura, que é capaz de esvaziar o vigor da língua. O conselho nesse caso é mantê-las de molho num amaciante de boa qualidade.

Mas se o que você quer é só aliviar as palavras do uso diário, pode usar sabão em pó e máquina de lavar. O perigo é misturar palavras que mancham no contato umas com as outras. Culpa, por exemplo, mancha tudo que encontra, e deve sempre ser alvejada sozinha. Outra mistura pouco aconselhada é amizade e desejo. Desejo é uma palavra intensa e pode, o que não é evitável, esgarçar a força delicada da palavra amizade.

É importante não lavar demais as palavras sob o risco de perderem o sentido. Aquela sujeirinha cotidiana, quando não é excessiva, produz uma oleosidade que dá vigor aos sons.

Muito importante na arte de lavar palavras é saber reconhecer uma palavra limpa. Conviva com as palavras durante alguns dias, deixe que se misturem em seus gestos e que passeiem pela expressão de seus sentidos. À noite, permita que se deitem não ao seu lado, mas sobre o seu corpo. Enquanto você dorme a palavra plantada em sua carne prolifera em toda a sua possibilidade.

Se você puder suportar essa convivência até não mais perceber a presença dela, aí você tem uma palavra limpa.

Uma palavra limpa é uma palavra possível.

Viviane Mose
Filósofa, psicanalista

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Me lava a alma e me leva embora

Parecia um inferno astral fora de época. Após um mês de reclusão voluntária, resolveu tomar um banho demorado e se arrumar para a saída da noite, como se estivesse seguindo um precioso ritual. Escolheu a calça jeans que melhor desenhava o seu corpo da cintura para baixo e uma blusa vermelha, decotada na medida certa para não ficar vulgar, apesar da cor já sugestiva. Colocou um salto alto enquanto se maquiava e lembrou-se de uma vez que leu numa revista que a primeira peça de roupa que toda mulher deve vestir é o salto alto, mesmo que nem fosse sair com ele, só pra se sentir impecavelmente sensual. Riu sozinha por não saber se enquadrava isso no campo das coisas sábias ou fúteis. Quebrando toda a rotina, decidiu não ir dirigindo daquela vez e aceitou a carona de uma amiga. A intenção era ficar o mais livre possível mesmo, sem aquela preocupação por antecedência de não poder extravasar a seu bel prazer. Chegou ao local do show que iria assistir e notou-se muito receptiva em relação aos outros, como se o universo, naquele instante, devolvesse-lhe o forte magnetismo de outrora. Surpresa e animada, bebeu a primeira cerveja e ficou ligeiramente tonta. Estava em comunhão com as pessoas e com todos os “eus” que lhe habitavam. Deixou a saudade mal curada lhe invadir e salpicar-lhe na cara uns bons momentos de uns anos atrás, quando cantou a despedida dos cegos do castelo para cuidar de um jardim, do jantar e do céu e do mar. Por onde ele andou enquanto ela o procurava? Salpicos de desencontros, também. Bebeu mais três cervejas. Abraçou com intensidade. Cantou em coro. Gargalhou junto de amigos sobre as tantas (e atuais) fases de agouro. Deixou que o mar ao lado e a maresia lavasse tudo isso. Sentiu-se realmente bem. Gritou aos quatro ventos: demônios devidamente exorcizados!

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Da solidão e o eterno-retorno

Mesmo após mais de dez anos (talvez bem mais), eu continuo andando em círculos em alguns aspectos. É a velha lei do eterno-retorno que faz todo o sentido para mim. Perguntando a um colega de faculdade se ele já tinha formado o seu grupo para uma prova prática de uma disciplina de laboratório, ele brincou dizendo que não, que estava “avulso”. Ri e fiquei pensativa: eu sou avulsa o tempo todo então. Parece-me que não importa muito o local, a mesma sensação não demora a retornar.
Sou de tantos. Sou de tão poucos. Sou de ninguém. Passeio por entre todos os grupos. Vejo-me um pouco em todos e em nenhum ao mesmo tempo. Como uma dialética ambulante (seria cabível esse termo aqui?).
A delícia é não se sentir limitada, é poder transitar conforme o seu humor e poder se recolher numa boa, sem precisar de avisos ou perguntas. E as dores? Muitas. Quando todos se agrupam e você não se manifesta, você quase não é lembrada. Não faz falta. Sua figurinha não preenche o álbum porque simplesmente ninguém acha que você o compõe. E não compor álbum nenhum dói. Não é vitória como alguns enxergam ser. Não é ser bem-resolvido. É solidão na sua esfera mais áspera mesmo.