terça-feira, 11 de maio de 2010

Laços invisíveis


Não há orgulho que me impeça de receber seu abraço.

Pulsões

Espio a mim mesma, comprimida em sinais do não pertencimento, estrangeira dos caminhos alheios, como não poderia deixar de ser. A tensão muscular se intensifica. Ombros que pesam mostram mais do meu inferno do que eu gostaria de saber. Das minhas contradições quando a vaidade assola meu calcanhar. Ansiedade. Diminuo o ritmo da respiração, lembrando de segurar o leme... Técnicas comportamentais me incitando a traições psicanalíticas. Brecando meu pulsar mortífero – como se pudesse ser. O tronco não agüenta a rigidez e eu me debruço na mesa. Extraio a não-leveza da poesia, mas sem exageros. O caminhar é vagaroso quando silencio... Bastam de alardes, confissões de coitada, escritos superlativos. Se eu agüento ou deixo de agüentar, cabe a mim mesma. A mão estendida me ajuda no equilíbrio, mas não me sustenta o peso. Eu compartilho por querer, já não mais por desespero. Meus planos se esticam e se apresentam em recomeço, já não mais por cegas fugas... A adolescência se foi há alguns poucos anos. Com ela, o extravasar em cascatas e algumas esperanças também. A falta de norte sucumbiu: tenho direções - sorrio por ser plural. Abocanho meus objetivos. Fortaleço-me em vorazes leituras. E vislumbro ser essa a legítima saída: pulsão de vida.

quarta-feira, 24 de março de 2010

...


Encolho-me para caber em versos que não sou. Em críticas que, em última instância, compreendo não precisar. Encolho-me para o encaixe estético, travo a língua e arrisco meu passo em falso. Por qual motivo? Tocar as mãos daquela que é alcançada por pássaros de outras castas? Pregar asas no sumo escrito agarrado em minhas pernas, como filho inseguro? As mãos se estendem desconhecendo minha frágil respiração poética. Pouco relevei a fluidez da minha prosa. Ela precisa de coragem, mas há que ser sem esperanças - disse-me. Por qual motivo? A falta dele (e minha) é objeto espaçoso na sala de espera.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Espio um jardim

Imagem: Chagall


Cercas sem arames farpados. Um verde de mastigar com os olhos. Ponte que faz Poti tocar a mão de Iracema, fortemente. Sorrisos de estremecer o corpo. À sombra dos eucalipitos, enraizamos nossas juras de amor sob a testemunha da mãe-terra - molhada, cheirosa, fértil. Eu me rendo e dou de ombros às súplicas das tempestades sem abrigo. Você me quer livre e eu me permito sentir o gosto doce desse passo. Te quero, meu cheiro amadeirado, trazendo as boas novas daqueles campos onde o amor não se valida com as inflamações torpes, as nocivas labaredas, onde os ossos se fraturam nas esquivas - o amor não é desamor. Munido de tinta azul, nosso lar já se ergue na beira do ribeirão com grandeza de mar. Beijo tuas mãos.


Obs: Texto escrito em volúpia, sem censuras, como uma queda d'água que flui em rapidez, inspirado nas palavras de um jardim suspenso.

domingo, 24 de janeiro de 2010

I

Quando queimei as pontes
O sagrado se espalhou como pólen
Transparente-lilás
- dulcíssimo exposto-mistério.

Penetrou as flores mais intocáveis
(tulipas entre os entulhos)
E as pequenas rachaduras
Nos cacos de vidro do muro

Altiva, eu nada quis reter.

Quando o lodo secou
(crosta na pele)
A fauna noturna sugou minha seiva,
Meus anticorpos.

Censurada, eu desaprendi a chorar.

Em cólera, perguntei:
Deus, por onde me espia
Para eu ultrapassar essa fresta?

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Carne viva


Lóri se sentia como se fosse um tigre perigoso com uma flexa cravada na carne, e que estivesse rondando devagar as pessoas medrosas para descobrir quem lhe tiraria a dor. E então um homem, Ulisses, tivesse sentido que um tigre ferido não é perigoso. E aproximando-se da fera, sem medo de tocá-la, tivesse arrancado com cuidado a flecha fincada.

(Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. P. 121)


sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Processo-dor I

Em hiato,
afastam-se as palavras.
Eu oro em desespero:
Muros se partam
para o meu sumo sair,
escorrer cintilante
em grito inflamado.
Os senhores vigilantes de todo o movimento
caçoam da minha alteridade
enfraquecem o jorro,
essa potência de vida.

O olhar, no entanto,
persegue ousado
a composição que atinge a víscera.

Alimento minhas algas marinhas,
mas não consigo expelir.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O coração comprime meu trinco.
A poesia encardida,
Impregnada das minhas fugas,
Acossa a saída como se fosse ver o mar.

Sendo que há tanto espelho
A me contar do que tanto sei.
(Cotidiano-caos,
Lamentável corte me atravessando impiedoso).

Acolho esse inferno de mim
Como uma sacramentada tristeza.
Eu não me abandono...
Maldigo o meu estar,
A minha espera desigual.
Mas não impeço o passo,
Impetuosa que sou.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Canção para dizer adeus




"Me and Joey started a fire in the road
Just to watch it glow
Me and you we did the same damn thing
We fell in love knowing the pain it would bring
Now all I do is sing sad songs with red eyes
Throw your arms around me
Let's keep this quiet
Hear our hearts in the distance like cannon fire
See our breath in the window, in the turning light"

sábado, 7 de novembro de 2009

Sincronicidade


A intuição me belisca: temos personas afins – da sombra, ainda estamos nos sabendo pouco. Lemos o mesmo livro no mesmo mês. Pulsamos pelos mesmos filmes. Somos afetados visceralmente pelas letras de um lugar onde nos encontramos bem antes da carne. Assim, tão íntimos e sabedores do nosso jorro. Sua anima carrega tanto de mim. É certeira. Pondero, mas sigo. Nossos acasos começam a se encontrar: inevitável não citar Kundera e a comparação disso com o encontro dos pássaros nos ombros de São Francisco de Assis. Um dia antes de sua chegada, percebo estar de frente a uma imagem dele enquanto te escrevo uma mensagem. Nesse meio tempo, uma fala minha te lembra nosso dueto preferido de filmes e você traz um deles na mochila, enquanto o outro se faz valer pela tamanha semelhança com o nosso dia – um roteiro inscrito em nós espontaneamente. Você vai embora e, na primeira vez que ligo a televisão, tenho a surpresa: está passando um dos filmes e na cena em que o casal tenta virar a noite acordado, deitado no chão com a cabeça encostada na outra. Sucessivas e estranhas coisas passam a se cruzar, repletas de significados, por estamos abertos e atentos. Por que Freud, se, nesse caso, Jung nos legitima tão romanticamente? Pondero, mas sigo.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Da morte. Odes mínimas

Durante o dia constrói
Seu muro de girassóis
(Sei que pretende disfarce
E fantasia)
Durante a noite,
Fria de águas
Molhada de rosas negras
Me espia.
Que queres, morte,
Vestida de flor e fonte?

- Olhar a vida.

(Hilda Hilst)
É preciso matar um dragão sempre que quero escrever por aqui. Às vezes o esforço não vale a pena tanto assim. Noutras, a vontade é tão imensurável que eu preparo minha munição e parto para o ataque. Se eu venço? Só sei no final do texto. Qual o prêmio? Nenhum, exceto alguns centímetros de alívio, porque catarse mesmo faz tempo que não vejo em forma de palavra. Saboto minha análise e meu desejo de escrever. Assim, meu sintoma escorre pela febre ou pela mão pesada daquele que põe limites no meu solto agir.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Gone





"You're taking steps that make you feel dizzy
Then you learn to like the way it feels.
You hurt yourself, you hurt your lover
Then you discover
What you thought was freedom is just greed."
(U2 - Gone)




sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Eu podia escrever um livro de trezentas páginas sobre esses últimos três dias. Ou bem mais que isso, bem mais. E pela vida inteira eu vou lembrar. Comovida, modificada, transbordando sensações. As crianças e suas mãos apertando a minha com força, os corações cercados de fogo, a flor com nossos nomes dentro das pétalas - e os deles bem juntinhos -, o choro, o caos, os abraços que pedem socorro, o corpo amordaçado... tantos fragmentos ainda por juntar, uma escuta ainda amedrontada para oferecer e toda a vontade do mundo de acolher.

Que meus olhos não se fechem.
Que eu não só veja, mas também repare.
Que minha escuta seja como as águas calmas do mar pela manhã.



Ps. (para os que se preocuparam por não entender): O texto se refere mais a uma experiência que tive com crianças institucionalizadas, através de uma proposta da base de pesquisa da qual faço parte na faculdade.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Imagens

Abraço com cabeça no ombro e cheiro no fim.
Morango com leite condensado.
Cheiro de bolo recém saído do forno.
Tomar café em dia frio.
Barulhinho de mar.
Mãos no cabelo descendo pra nuca.
Cheiro de terra molhada pela chuva.
Unhas arranhando as costas levemente.
Água gelada depois de uma longa caminhada debaixo do sol forte.
Comidas de festinha de criança.
Deitar à noite na areia da praia, com gente querida, e ver estrelas.
Vento no rosto andando de bicicleta.
A festa que nosso cachorro faz quando chegamos em casa.
Cheiro de alho fritando no azeite.
Mar alaranjado quando o sol se põe.
Mar avermelhado quando o sol nasce.
Sentir seu abraço mesmo quando você não está aqui.
Achar o tempo sempre curto para te dizer qualquer coisa.
Ver muitos corações no caminho onde há você.

Adélia Prado


O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.

O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.

O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.

Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.

Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.

Mas água o amor não é.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Casa de vó



Quase fim de tarde: hora de tomar uma xícara de café com o bolo de laranja mais gostoso do mundo. Faz silêncio em casa e na vizinhança. Entra a minha luz preferida, a da tardinha, por várias direções – aqui tem muitas portas amplas. Minha avó também cumpre seu ritual: acende um cigarro na varanda enquanto observa seu jardim. Nunca mais me falou do beija-flor, freqüente visitante durante alguns anos que lhe lembrava sua mãe. Ofereço-lhe meu café, quero ficar mais perto, deslizo meus dedos pequenos entre suas mechas de cabelo e cheiro sua pele, nas proximidades do ombro. Um carinho que nem sempre ela encontra espaço em seu denso mundo de angústia – o peso que carrega por ser a grande loba da matilha, as nossas entranhas e salvação. Ainda que seja sempre ímpeto, sua casa transborda paz. E, aqui, faço-me parte da ordem, figura constituída. Sinto o chão e o teto. Durmo ao seu lado, como nos tempos de infância, quando acordava no meio da noite para ver se a grande loba, minha mãe terra, continuava a respirar. Aqui, o dia faz mais sentido que a noite. Sou mais Sol, mais próxima do azul. Corpo em frente à lareira, mil comidinhas, sopa deliciosa com torradas, três cães, quatro gatos. Irmã, avô, tia e a avó que é mãe-terra. Minha base, minha família. A referência que me faz forte.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Descansa coração



"Cansei de tanto procurar
Cansei de não achar
Cansei de tanto encontrar
Cansei de me perder

Hoje eu quero somente esquecer
Quero o corpo sem qualquer querer
Tenhos os olhos tão cansados de te ver
Na memória, no sonho e em vão

Não sei pra onde vou
Não sei
Se vou ou vou ficar
Pensei, não quero mais pensar
Cansei de esperar

Agora nem sei mais o que querer
E a noite não tarda a nascer
Descansa coração e bate em paz"

Composição: Simons & Marques / Alberto Ribeiro
Versão escutada: Fernanda Takai

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Into the wild I

De joelhos não é uma maneira de ser livre
Levantando um copo vazio, pergunto silenciosamente:
Todos os meus destinos aceitação aquele que realmente sou
Para que eu possa respirar?

Círculos que crescem e engolem pessoas completamente
(...)
Uma mente cheia de perguntas, e um professor em minha alma
E por aí vai...

Não se aproxime ou terei que ir
Tal como a gravidade, são esses lugares que me puxam
Se alguma vez houve alguém para me manter em casa
Seria você...

Todos que encontro, em gaiolas que compraram,
Pensam sobre mim e minha vida errante,
Mas eu sou o que eles nunca pensaram.
Eu tenho a minha indignação, mas sou puro em todos os meus pensamentos
Eu estou vivo...

Vento em meus cabelos, sinto-me parte de todos os lugares
Sob o meu ser, há uma estrada que desapareceu
Tarde da noite, eu ouço as árvores
Elas estão cantando com os mortos no alto...

Deixe comigo que eu encontro um jeito de ser
Considere-me um satélite, sempre orbitando
Eu conhecia todas as regras, mas as regras não me conheciam
Com certeza...


(tradução da música "Guaranteed" de Eddie Vedder - trilha sorona do filme "Into the wild")

quarta-feira, 9 de setembro de 2009


"E naquele momento evitava precisamente a solidão, que seria uma bebida forte demais."
Clarice Lispector