Ele, das íris mais prósperas, segurou timidamente a minha mão e depois me tirou para dançar. Fez um carinho discreto em minhas costas. Gentilmente, sem me invadir. Achei sutil e charmoso. Correspondi no mesmo ritmo. De volta para casa, Bob Dylan no som, diminuindo o espaçamento da nossa comunicação cheia de sulcos. Um jeito torto de dizer: estamos muito perto.
terça-feira, 25 de agosto de 2009
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Já.
Nem deve ter prestado atenção quando eu contei que tinha varrido para debaixo do tapete. Fiz drama, insinuei desespero. Tão bobo, não vê que o tapete está na minha casa e eu sei muito bem levantá-lo? Boba eu, talvez, que vejo com tanta dificuldade algo tão simples. Costuro minha sombra de volta: ele e aquele outro já me olham diferente e eu não me sinto fraca. Ponto. Quero ficar só. Estou bem aqui, eu com minha lucidez. Nada de cacos sobre a pele. Descanso do rastejar que abomino. Tenho de volta a liberdade do meu trânsito,. Avante em movimentos fluorescentes (quadro de Hendrix a testemunhar íris mais prósperas). Se é só por hoje? Quem se importa?
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Hilda Hilst I
Sonetos que não são
Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.
Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.
_____________
"O teu passo de ferro
Esmaga o que na noite foi minha vida
E recomeço. E recomeço. ..."
"E que para mim construam
Aquelas delicadezas, umas rendas, uma casa de seda
Para meus olhos duros."
Aquelas delicadezas, umas rendas, uma casa de seda
Para meus olhos duros."
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Dúvida
“Aqui é dor, aqui é amor, aqui é amor e dor:
onde um homem projeta seu perfil e pergunta atônito:
em que direção se vai?”
(Adélia Prado: O Coração Disparado)
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Da madrugada

É um pecado deixar essas preciosas horas da madrugada para ir dormir... É sabido que eu, tão girassol, fico circulando às tontas durante o dia - só a madrugada me devolve a sanidade. Então repouso, ainda que torta, onde ninguém me alcança. Sozinha, e acolhida pelos longos braços da deusa noite, purifico-me com água quente, sob a luz das minhas velas imaginárias espalhadas pelo quarto, como num ritual muito sagrado. E colho, com minhas mãos em concha, as letras viscerais de mim: doloroso processo para me salvar.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
domingo, 9 de agosto de 2009
.
A noite se ampliou
Quando o teu silêncio coube
No meu descompasso.
- - -
Chove e sinto frio.
Livra-me, esta noite,
com teu corpo-cabana,
De molhar minha ferida?
- - -
Tão poesia: a mão dele deslizando três vezes na curva entre meu ombro e pescoço.
Ali - Caio Fernando me disse -, onde o cheiro de nenhuma pessoa é igual ao de outra.
.
A noite se ampliou
Quando o teu silêncio coube
No meu descompasso.
- - -
Chove e sinto frio.
Livra-me, esta noite,
com teu corpo-cabana,
De molhar minha ferida?
- - -
Tão poesia: a mão dele deslizando três vezes na curva entre meu ombro e pescoço.
Ali - Caio Fernando me disse -, onde o cheiro de nenhuma pessoa é igual ao de outra.
.
sábado, 8 de agosto de 2009
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
domingo, 2 de agosto de 2009
domingo, 10 de maio de 2009
(é tudo piada)
Tudo azul
No céu desbotado
E alma lavada
Sem ter onde secar
Eu corro, eu berro
Nem dopante me dopa
A vida me endoida
(...)
Se eu vou pra casa
Vai faltando um pedaço
Se eu fico, eu venço
Eu ganho pelo cansaço
Dois olhos verdes
Da cor da fumaça
E o veneno da raça
(...)
Levando em frente
Um coração dependente
Viciado em amar errado
Crente que o que ele sente
É sagrado
E é tudo piada
E é tudo piada
(Cazuza e Frejat)
No céu desbotado
E alma lavada
Sem ter onde secar
Eu corro, eu berro
Nem dopante me dopa
A vida me endoida
(...)
Se eu vou pra casa
Vai faltando um pedaço
Se eu fico, eu venço
Eu ganho pelo cansaço
Dois olhos verdes
Da cor da fumaça
E o veneno da raça
(...)
Levando em frente
Um coração dependente
Viciado em amar errado
Crente que o que ele sente
É sagrado
E é tudo piada
E é tudo piada
(Cazuza e Frejat)
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Pouco antes, era blues. Naquele momento, era chuva. O quarto azul me fazia esquecer que estávamos em carnaval (ali parecia mais um bangalô que vi certa vez na praia dos carneiros, em feriado tranqüilo). Noite, seja longa. Chuva, não pare tão logo amanhecer (eu pedia em silêncio para que então nosso quarto de mar se ampliasse para dentro de nós).
Corpos de sal grosso, cama-enseada - a baía que não cortava a nossa distância.
Corpos de sal grosso, cama-enseada - a baía que não cortava a nossa distância.
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Ê desassossego que tem tornado as noites mais longas. Peço calma e meu coração transborda inquietude. Peço serenidade, mas está tudo tão bagunçado, em andanças desordenadas, que o azul só existe em olhares alheios, em fotografias de lugares estranhos ao meu descompasso. Quando penso estar gerando bons movimentos, mirando em um ponto sensato, o universo me pega pelos pés, fico de ponta-cabeça e o sangue, mal circulado, deixa meu corpo gélido e minha mente em chamas. As farpas que me atacam não são para mim. Isso é fato claríssimo. Eles querem me empurrar num abismo que não é meu e me dar de presente uma dor que não é minha. E eu só quero levar meus dias em paz, no meu passo ritmado, nas diretrizes que tento estabelecer arduamente. Eles me sugam até o último fio de cabelo e, não satisfeitos, querem ser ditadores da minha opinião, para que seus caminhos tortos e mesquinhos possa se perpetuar. E eu não sei quem é mais cego entre nós todos. Tento me esquivar do possível caco arremessado em minha direção. Escapo, mas não ilesa. Mil cacos me ferem por dentro e meu alicerce parece entrar em decomposição. Busco loucamente a porta de saída. Tem de existir. Ponto.
segunda-feira, 2 de março de 2009
valsa brasileira
Você tão alma pronta para entrega e eu com tantas amarras. Você então me chamou pra dançar e conseguimos uma maciez rara nos passos. Você com medo de me invadir, eu com medo de permitir. Aceitei o beijo e eu que te explorei a boca. Você gostou do meu cheiro e eu das suas mãos, enquanto sua voz baixinha soprava uma valsa brasileira. Tive, sim, vontade de fugir, mas estava tudo tão bonito...
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
“que medo alegre o de te esperar”
clarice lispector
clarice lispector
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
E esses olhos, cor de minha cachaça preferida, a me fitar? Tão serenos. E esse sorriso cor de areia branca, de abrir caminhos em mim? Leveza de toque na perna, de mão na mão, de beijo na bochecha, de língua que espera. O silêncio bem aceito, o sentir que dá gosto, íris sempre a caçar as miudezas. De certo, ele gosta dos vazios como eu e quis carregar água na peneira também. Ele pára e olha o movimento que o vento faz nos meus cabelos, fica ali olhando, contando das suas andanças e eu, como sempre, flor aberta, respirando maresia, entardecendo: estamos sendo, diria ela que faz festa em minha estante de livros.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
eu na praia de pipa-rn
Por fuga, consegui ter o mais movimentado dos verões. Só para me distrair, vi tanto o sol se pôr em lagoa, em mar, em fazendas nas estradas. Querendo esquecer os pesos, tomei muito banho de mar. E para não ser sozinha, corri para o abraço de primos, tias e avós. Senti o cheiro deles, virei noites fazendo bagunça no quarto, papariquei, fiquei mais na cozinha para aprender as raridades gastronômicas, para tentar fazer junto com o primo caçula que, com dez anos de idade, já sabe fazer molho branco, refogar macarrão, ganhar de mim no UNO... É abraço pra cá, você é linda pra lá, me enche de mimos e me orgulha com sua esperteza incomum. Até caminhar em areia fofa da praia, em noite de lua cheia, junto com a tia mais bonitona, só para eliminar as calorias de tanto caranguejo, peixe frito e rocambole de chocolate com recheio de morango em pedaços. Apostei corrida de caiaque com a prima mais traquina e hiperativa do mundo, na lagoa. Sai desbravando estradas apenas com minha irmã para fazer um roteiro só nosso, de muito descanso e dias de sol. Conversei por horas e horas com uma pessoa com raízes no mundo e ganhei brincos em forma de libélula, pulseirinhas e anéis e quis ficar perto e ser mais mar. E ainda teve sessões de filmes, todo mundo junto, apertado, em colchões na sala, como em outrora era tão mais comum acontecer e hoje tem gosto de nostalgia. Os gatos do meu avô (Felipe, Olga e Anita) pintaram o sete na casa de praia, tiraram a paciência do labrador Bruce enquanto este estava preso, enquanto minha miloca (a cadela mais carinhosa do mundo) jogava sua bolinha azul na piscina e vivenciava a maior das aventuras para tentar resgatar e eu me divertindo horrores com as peripécias dessas criaturas, quando não estava enchendo Dona Maria de beijos. Depois era hora de ver estrelas e pensar em tudo que é tão maior, só para não me sentir triste ao me lembrar daqueles dois (que dão tanto trabalho).
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