terça-feira, 18 de agosto de 2009

Hilda Hilst I

Sonetos que não são

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.


_____________


"O teu passo de ferro
Esmaga o que na noite foi minha vida
E recomeço. E recomeço. ..."



"E que para mim construam
Aquelas delicadezas, umas rendas, uma casa de seda
Para meus olhos duros."

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Dúvida


“Aqui é dor, aqui é amor, aqui é amor e dor:
onde um homem projeta seu perfil e pergunta atônito:
em que direção se vai?”

(Adélia Prado: O Coração Disparado)

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Da madrugada


É um pecado deixar essas preciosas horas da madrugada para ir dormir... É sabido que eu, tão girassol, fico circulando às tontas durante o dia - só a madrugada me devolve a sanidade. Então repouso, ainda que torta, onde ninguém me alcança. Sozinha, e acolhida pelos longos braços da deusa noite, purifico-me com água quente, sob a luz das minhas velas imaginárias espalhadas pelo quarto, como num ritual muito sagrado. E colho, com minhas mãos em concha, as letras viscerais de mim: doloroso processo para me salvar.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

tem uma madrugada comprimindo a minha dor.

domingo, 9 de agosto de 2009

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Centelhas anestesiam minha pele rasgada,
Sem costurar os vãos.
Os goles de vinho descem sem me inflamar
E me exigem a incumbência de secar o chão.



.

A noite se ampliou
Quando o teu silêncio coube
No meu descompasso.


- - -

Chove e sinto frio.
Livra-me, esta noite,
com teu corpo-cabana,
De molhar minha ferida?


- - -

Tão poesia: a mão dele deslizando três vezes na curva entre meu ombro e pescoço.
Ali - Caio Fernando me disse -, onde o cheiro de nenhuma pessoa é igual ao de outra.


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sábado, 8 de agosto de 2009

Nunca que vamos dançar juntos naquela roda de samba.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

II




eu teria deixado meu lenço lilás contigo
- fim de noite, tua casa tão perto...
todavia, respondendo meu apelo,
Petrópolis vazia me entregou a recusa.
e em silêncio gritante,
engavetei meu cheiro-presente.

domingo, 2 de agosto de 2009

Assumi os riscos
Despindo-me de toda a razão.
E os cactos para te ferir,
Puseram-se torcidos, punindo meu fraquejar.

Teu peso destemperado
Não tornou leve meu corpo de medos.
Teu olhar fugidio
Já não era mais prenúncio do meu azar.

domingo, 10 de maio de 2009

(é tudo piada)

Tudo azul
No céu desbotado
E alma lavada
Sem ter onde secar
Eu corro, eu berro
Nem dopante me dopa
A vida me endoida

(...)

Se eu vou pra casa
Vai faltando um pedaço
Se eu fico, eu venço
Eu ganho pelo cansaço
Dois olhos verdes
Da cor da fumaça
E o veneno da raça

(...)

Levando em frente
Um coração dependente
Viciado em amar errado
Crente que o que ele sente
É sagrado
E é tudo piada
E é tudo piada

(Cazuza e Frejat)

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Pouco antes, era blues. Naquele momento, era chuva. O quarto azul me fazia esquecer que estávamos em carnaval (ali parecia mais um bangalô que vi certa vez na praia dos carneiros, em feriado tranqüilo). Noite, seja longa. Chuva, não pare tão logo amanhecer (eu pedia em silêncio para que então nosso quarto de mar se ampliasse para dentro de nós).
Corpos de sal grosso, cama-enseada - a baía que não cortava a nossa distância.
Ê desassossego que tem tornado as noites mais longas. Peço calma e meu coração transborda inquietude. Peço serenidade, mas está tudo tão bagunçado, em andanças desordenadas, que o azul só existe em olhares alheios, em fotografias de lugares estranhos ao meu descompasso. Quando penso estar gerando bons movimentos, mirando em um ponto sensato, o universo me pega pelos pés, fico de ponta-cabeça e o sangue, mal circulado, deixa meu corpo gélido e minha mente em chamas. As farpas que me atacam não são para mim. Isso é fato claríssimo. Eles querem me empurrar num abismo que não é meu e me dar de presente uma dor que não é minha. E eu só quero levar meus dias em paz, no meu passo ritmado, nas diretrizes que tento estabelecer arduamente. Eles me sugam até o último fio de cabelo e, não satisfeitos, querem ser ditadores da minha opinião, para que seus caminhos tortos e mesquinhos possa se perpetuar. E eu não sei quem é mais cego entre nós todos. Tento me esquivar do possível caco arremessado em minha direção. Escapo, mas não ilesa. Mil cacos me ferem por dentro e meu alicerce parece entrar em decomposição. Busco loucamente a porta de saída. Tem de existir. Ponto.

segunda-feira, 2 de março de 2009

valsa brasileira

Você tão alma pronta para entrega e eu com tantas amarras. Você então me chamou pra dançar e conseguimos uma maciez rara nos passos. Você com medo de me invadir, eu com medo de permitir. Aceitei o beijo e eu que te explorei a boca. Você gostou do meu cheiro e eu das suas mãos, enquanto sua voz baixinha soprava uma valsa brasileira. Tive, sim, vontade de fugir, mas estava tudo tão bonito...

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

“que medo alegre o de te esperar”
clarice lispector

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

E esses olhos, cor de minha cachaça preferida, a me fitar? Tão serenos. E esse sorriso cor de areia branca, de abrir caminhos em mim? Leveza de toque na perna, de mão na mão, de beijo na bochecha, de língua que espera. O silêncio bem aceito, o sentir que dá gosto, íris sempre a caçar as miudezas. De certo, ele gosta dos vazios como eu e quis carregar água na peneira também. Ele pára e olha o movimento que o vento faz nos meus cabelos, fica ali olhando, contando das suas andanças e eu, como sempre, flor aberta, respirando maresia, entardecendo: estamos sendo, diria ela que faz festa em minha estante de livros.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

"E era isso o que estava lhe faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem."
(Clarice Lispector in Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres)



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009



eu na praia de pipa-rn


Por fuga, consegui ter o mais movimentado dos verões. Só para me distrair, vi tanto o sol se pôr em lagoa, em mar, em fazendas nas estradas. Querendo esquecer os pesos, tomei muito banho de mar. E para não ser sozinha, corri para o abraço de primos, tias e avós. Senti o cheiro deles, virei noites fazendo bagunça no quarto, papariquei, fiquei mais na cozinha para aprender as raridades gastronômicas, para tentar fazer junto com o primo caçula que, com dez anos de idade, já sabe fazer molho branco, refogar macarrão, ganhar de mim no UNO... É abraço pra cá, você é linda pra lá, me enche de mimos e me orgulha com sua esperteza incomum. Até caminhar em areia fofa da praia, em noite de lua cheia, junto com a tia mais bonitona, só para eliminar as calorias de tanto caranguejo, peixe frito e rocambole de chocolate com recheio de morango em pedaços. Apostei corrida de caiaque com a prima mais traquina e hiperativa do mundo, na lagoa. Sai desbravando estradas apenas com minha irmã para fazer um roteiro só nosso, de muito descanso e dias de sol. Conversei por horas e horas com uma pessoa com raízes no mundo e ganhei brincos em forma de libélula, pulseirinhas e anéis e quis ficar perto e ser mais mar. E ainda teve sessões de filmes, todo mundo junto, apertado, em colchões na sala, como em outrora era tão mais comum acontecer e hoje tem gosto de nostalgia. Os gatos do meu avô (Felipe, Olga e Anita) pintaram o sete na casa de praia, tiraram a paciência do labrador Bruce enquanto este estava preso, enquanto minha miloca (a cadela mais carinhosa do mundo) jogava sua bolinha azul na piscina e vivenciava a maior das aventuras para tentar resgatar e eu me divertindo horrores com as peripécias dessas criaturas, quando não estava enchendo Dona Maria de beijos. Depois era hora de ver estrelas e pensar em tudo que é tão maior, só para não me sentir triste ao me lembrar daqueles dois (que dão tanto trabalho).

sábado, 31 de janeiro de 2009

Maré



auto retrato em baia formosa-rn



Mais uma vez
vem o mar
se dar
como imagem
Passagem
do árido à miragem

Sendo salgado
gelado
ou azul
Será só linguagem

Mais uma vez
vejo o mar
voltar
como imagem
Passagem
de átomo a paisagem

Estando emaranhado
verde azul
Será ondulado

Irado emaranhado
verde azul
Será ondulado

(Adriana Calcanhotto - Maré)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Diferenças, medos e aceitação



Diz que me ama
Mas o que é que eu fiz
Porque há mais de uma semana
Você está de má vontade
Tudo o que eu digo parece bobagem
Apesar de achar que, em parte
O que você diz é verdade
Mas isso não é nenhum desastre
Pois nunca é tarde pra saber
Que não há nada errado em sermos diferentes
(Só somos diferentes).

[Nando Reis - Sortimento]


* * *

Vou tentar manter o coração aberto pra você,
Apesar dos outros,
Apesar dos medos,
Apesar dos monstros nos meus pesadelos

Vou tentar manter o coração aberto pra você,
Apesar dos trincos,
Apesar dos trancos,
Apesar dos dias repetidos que são tantos.

Eu vou tentar manter o coração aberto pra você.
Apesar da chuva,
Apesar da rua,
Apesar da hora,
Apesar dos pesares, das canções, dos lugares,
Apesar dos meus pensamentos, dos perigos, dos próximos momentos.

Eu de coração aberto pra você,
de coração aberto pra você.

[Aberto - Zélia Duncan e Edu Tedeschi]

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

mar de pôr do sol



Baía Formosa/RN - 08/01/09 - Foto de minha autoria



Tão logo o sol se pôs no porto,
entrei no mar.

Resquícios de luz
fizeram dele um alaranjado só,
num banho de me dourar: tão pérola.

Sozinha com meus pesos,
meus sais
meus tempos
- sou fênix marinha e meus descaminhos vicejam e me purificam
[ quando a água me acolhe.