sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
domingo, 30 de novembro de 2008
A intimidade
Gosto quando a intimidade vem sorrateira, sem pedir licença, quando cai como luvas em minhas mãos ressecadas. O clichê faz sala para as palavras, mas eu pouco me importo se é piegas e tão dito pelas bocas mundo afora. Importa-me mais ser chamada pra deitar no teu peito e querer, querer também as pernas encaixadas e nossos pés com linguagem própria. E a gente se olha com timidez e a intimidade já está lá, sem muito tempo a perder, fazendo tanto por nós. Lava a louça antes que a gente se incomode, prepara sobremesas, o banho, economiza pratos, cerimônias, dizeres... A intimidade ri da dor de barriga imprevisível, do beijo quando descompassado, das gafes que nenhum cinéfilo perdoaria, da música brega que insiste em martelar na cabeça. Ri dos nossos olhares, das nossas inquietações, dos monstros que somos nós e não somos e não sabemos.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
sábado, 15 de novembro de 2008
2.2
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Das mudanças que saltam aos olhos ou mais um texto egocêntrico
D.: Você pode estar meio assustada, sem saber ainda que destino dar para tantas mudanças, mas você, no fundo, sabe exatamente quem você é e nunca soube tão bem.
M.: Não poderia ser diferente, você perdeu muito daquela visão romântica de cinco anos atrás. Estranho seria se continuasse a mesma, sempre.
Y.: Seu texto, diga-se de passagem, foi muito bem escrito – algo que não é novidade na sua pessoa. Aquilo que aparece como novo para mim é sua dureza, forte ironias e defesas.
R.: Gostei principalmente de lhe ver mais centrada, forte e serena.
U.: Se fosse hoje em dia, eu jamais lhe daria “a mulher sem pecados”* novamente.
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* livro de Nelson Rodrigues.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Quando eu quis ser grande
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
Das escolhas I
E só os deuses e as pessoas mais íntimas captariam a imensa importância disso.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
sábado, 6 de setembro de 2008
Pedindo licença
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Esse samba
Eu fui sozinha. Deus, como fazia tempo que eu não ousava tanto. A Ribeira, tão vazia em fim de tarde, tinha cheiro de saudosismo como um retrato em preto e branco. Tive medo. Cheguei, como dizem, “pelas beiradas”, quase me escondendo. Tirei o celular da bolsa, fingi tentar ligar para alguém, olhei meio inquieta pro relógio... Pelo o amor dos deuses, como é difícil estar só estar só vez em quando! Devo ser mesmo muito extremista, pois bem sei a vontade danada que tenho de dar minhas voltas solitárias, a fim de conferir o ambiente, quando saio com outras pessoas. No entanto, naquele buraco da catita, eu achei ruim estar só. Talvez eu goste de uma "liberdade segura", por assim dizer. Mas, voltando: o samba ia esquentando e todo mundo agregado. Com quem eu iria comentar que a música Desalinho é a cara da minha mãe? E que Cartola (e todo o samba da velha guarda da mangueira) é mantido no repertório das batucadas da minha família há mais de 40 anos? Só então eu percebi que o samba se torna infinitamente mais triste quando se está só. Samba é música de roda, de olhar no olho, de se apropriar do tamborim alheio enquanto o dono sai para ir ao banheiro ou pegar mais uma bebida... O que fazer? Decidi respirar fundo e curtir mesmo assim. Pelo samba, o sacrifício era mais que válido. A cerveja e a música foram me animando cada vez mais e, quando percebi, já estava com os pés ganhando vida própria, involuntários, doidos para sambar. O canal se abriu e as pessoas ao redor me acenaram com a mão, num gesto de aprovação à ousadia que começara tão cabisbaixa. As meninas da mesa à frente tomaram coragem e me chamaram para perto. Os músicos tiraram o chapéu e atenderam nosso pedido de Tiro ao Álvaro. Quase havia me esquecido que o samba é isso. O samba é buliçoso. O samba balança, mas não cai.
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
sem título
Meu corpo, às vezes, nem sei se é um templo sagrado
Quando ofereço minha carne
E a devoram
Indiferentes ao que deixam
E àquilo que levam de mim.
Sou muito mais, ouviram?
Ainda que torçam meus espinhos para dentro
Ainda que eu finja que nem me importo
Com qualquer depois...
Um vão se forma em minha alma
Em dias de exposição barata.
Novamente, mordo essa língua:
Não me basta.
terça-feira, 19 de agosto de 2008
Do desejo
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Caio Fernando Abreu in "Os dragões não conhecem o paraíso", p. 148.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Quase três horas da manhã. Todos os cômodos da casa estão escuros, exceto por aqui, ao meu redor, com essa luminária cor de prata acesa. A cidade é lavada impiedosamente por uma chuva ininterrupta. É água tomando conta de tudo e a gente acaba ficando mais só, assim, sem muita escolha. Gosto quando a natureza põe as coisas em seus devidos lugares e mostra quem controla quem. Fernando Pessoa se vestia de Alberto Caeiro em dias mais céticos – nem por isso menos poéticos – e defendia que não há mistério algum no mundo, que tudo está de acordo e vale à pena. É, tem dias em que também acordo meio Caeiro, mas hoje não. Hoje eu me pego pensando nesse indizível da matéria do mundo, sentindo uma inquietude por estranhar essa coerência tão incoerente do espaço e da vida residente nele, a vida com prazo de validade que teimamos em eternizar.
Um café alivia o frio tal qual um abraço ou um deitar no peito de quem amamos. E aí chegamos a pensar ser nesse novelo bom de sensações que o significado de tudo se dá e se finda. No entanto, quando estamos sós, muita coisa parece se desconstruir ao passo em que engolimos o mundo com ansiedade (ou nós somos engolidos por ele?) – fragmentos de certezas descartadas por todo o corpo ou nosso corpo desfragmentado em certezas invisíveis.
domingo, 15 de junho de 2008
Tudo estava indo bem no país das maravilhas quando um velho sentimento resolveu reaparecer. Eu acreditava ter me despedido no dia em que pus um ponto final em forma de tatuagem - uma lua - na minha epiderme. Ali era o limite, decretei exausta. Eu tinha quinze anos quando o conheci. Ele era grande demais para o meu corpo de menina-moça, que nunca havia experimentado respirar o mundo caótico e sedutor nos pulmões. Seu peso me obrigou a andar com os pés afundando e sua aspereza me perfurava o peito sem piedade. E ele nem era por mim. Nem vinha de mim. Espetava a cada um dos vinculados a seu modo. - Lua, me lava a alma e me leva embora*. Porque se minha voz tivesse força igual à imensa dor que sentia, meu grito acordaria a vizinhança inteira**. E quem dera que se tratasse de dor de cotovelo ou de qualquer tipo de luto simbólico. Agora ele volta. O peso extravasa em tensão no ombro, como se tivesse carregado 15 kg nas costas o dia inteiro. Eu sinto mais indignação do que compaixão. Percebo então o grande cansaço que outrora deixou. Constato: não tenho mais tanta carne pra deixar-me conduzir pelo medo e fraqueza. Descarregue nas costas, mas não vai machucar meu peito de novo. O tempo é outro e meus mecanismos de defesa estão afiadíssimos. Doses cavalares de serenidade, por favor!
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*em itálico, um trecho da música "samba a dois" de los hermanos.
** adaptação discreta da música "há tempos" de legião urbana.



